Uma palavra sobre Radamés

“Eu gostava de escrever música, gostava de fazer partitura de orquestra. Eu copiava tudo dele. Quando demorava um pouquinho, eu perguntava ‘Ué, não tem mais nada?’ Ele tinha vergonha porque eu não queria dinheiro; então, à vezes, ele me mandava um presentinho.

Sua virtuosidade era natural. Não me lembro do Radamés errar. Sua técnica era natural. Ele pouco estudava.  Era vagabundo! Dizia ter escolhido a música porque era mais fácil. Por isso, não ia ficar estudando a manhã inteira podendo ficar só meia hora.

A primeira vez que eu fui à Rádio Nacional foi para tocar um arranjo do Radamés, a dois pianos. A música chamava-se Dialogando. Aí ele achou interessante e começou a inventar de tocar a dois pianos. Tocamos muito juntos.

Foi só depois que a mamãe morreu, em 1954, que eu fui tocar com o Radamés, primeiro em duo, depois ele formou o sexteto [Sexteto Radamés Gnattali] e eu fui tocar o segundo piano. 

Aída Gnattali nasceu em 08/10/1911. Iniciou seus estudos de piano com a mãe, dona Adélia, e ingressou, aos 10 anos, na classe da professora Julieta Leão, no Conservatório da Escola de Belas Artes de Porto Alegre, formando-se em 1929. Abdicou da carreira de concertista para dedicar-se inteiramente à família, cuidando dos pais até o final de suas vidas. Exímia copista, revisou e copiou toda a obra de Radamés, popular e erudita, desde os tempos de juventude, em Porto Alegre. Depois do falecimento da mãe, optou por morar sozinha, no mesmo apartamento conjugado da Rua Bolivar (foto), em Copacabana, tendo como companhias inseparáveis as músicas de Beethoven, Cláudio Arrau e Radamés.
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Em 1960, o Sexteto viajou para a Europa. Estivemos em Portugal, França, Inglaterra, Alemanha e Itália. Fomos muito bem recebidos, em Portugal principalmente. Eles nos trataram muito bem. O Edu da Gaita também foi e tocou o Concerto para Harmônica e Orquestra  que o Radamés dedicou a ele. Foi um sucesso. Além desse concerto do Edu, tocamos, eu e Radamés, os Quatro movimentos dançantes  para dois pianos [mais conhecida, atualmente, como Suíte coreográfica]. É uma peça muito difícil e muito boa. Tem um pedacinho daquela peça que eu nunca consegui fazer igual ao Radamés. Ele fazia e me mostrava como queria [Aída solfeja]. Eu fazia igualzinho a ele, com a mesma força e não saía igual. Acho que é coisa de mão. Eu dizia “Será possível?”, mas nunca saía igual.

Ficamos em Portugal muito tempo, uns vinte dias. Fomos para Paris. Fomos a Londres. Gostei muito de Londres, mais do que de Paris. Depois na Itália. Quando eu botei o pé na Itália, me emocionei. A velha Itália do papai! E aí a gente tocou muito bem na Itália. Fizemos uma última apresentação na RAI e depois voltamos. Mas eles [os europeus] não esperavam. Quando eles ouviram o Sexteto tocando Aquarela do Brasil, parecendo uma orquestra sinfônica… e éramos só seis!  O maestro italiano ficou encantado.

Depois voltamos ao Rio de Janeiro e não durou muito mais. Eu me aposentei. Acho que, tudo, durou só uns dez anos”.
[Aída deixou o Sexteto em 1965].

 

(Trecho da entrevista da pianista e professora Aída Gnattali (1911-2008), irmã de Radamés, concedida à historiadora Maria Clara Wasserman, em fevereiro de 2003)