uma palavra para Radamés

“Como classificar um músico capaz de escrever, com autenticidade, alentadas obras sinfônicas, concertos para violino, piano, violoncelo, acordeão, harmônica de boca e tantos outros instrumentos; valsas e chorinhos populares brasileiros e, depois, sentar-se ao piano executar com precisão o que escreveu e, ainda, obras de outros autores? Se ‘o estilo é o homem’ , conforme Buffon, e, na verdade, o é, devemos consagrar, batizando com o nome Estilo Radamés Gnattali, todos os que forem, capazes de tais façanhas!”

Alceo Bocchino (1918-2013) (maestro, pianista, compositor, professor, arranjador. Fundador da Orquestra Sinfônica Nacional. Criador, em 1985, da Orquestra Sinfônica do Paraná. )

Trecho de texto publicado no encarte do CD Três concertos e uma Brasiliana, de Radamés Gnattali, lançado pela Rádio MEC/SOARMEC, em 1997.

“(…) Radamés me ajudou demais na carreira. Como não sei música, era ele quem fazia 90 por cento das orquestrações de meus trabalhos. Era um grande amigo, mais do que um irmão. A música brasileira ficou mais pobre agora.”

Braguinha (1907-2006) (Carlos Alberto Ferreira Braga, compositor, conhecido como Braguinha e também como João de Barro.)

Declaração de Braguinha ao Jornal O Globo, de 04 de fevereiro de 1988, dia seguinte da morte de Radamés.

“(…) Fora da boléia onde se agridem os ritualistas da burocracia, Radamés Gnattali exerceu-se com uma dignidade que é própria dos artistas que nasceram para florescer dentro de uma marginalidade em que vivem confinados. A palavra cultura ele a cultuou em seu terço de sons, em seus patuás grafitados por notas musicais, nos búzios que ele jogava sobre os pentagramas – único altar onde fazia uma celebração para-religiosa que independia do menor ou maior poder oficial, que aliás desprezava. No seu ateísmo cabiam alguns totens: Pixinguinha e Anacleto de Medeiros, por exemplo, coabitavam com Chagall em altar exclusivo. (…)”

Hermínio Bello de Carvalho (1935) (poeta, escritor, compositor, letrista de música popular, produtor, ativista cultural)

Trecho do artigo "Radamés: Marginalidade imposta pelo sistema", de Hermínio Bello de Carvalho, publicado no jornal Direitos Já, número de março/abril de 1988.

“Radamés é impermeável porquê quando ele faz música popular é música popular e quando faz música de concerto é música de concerto. Uma não atrapalha a outra.
Como arranjador e regente, ele faz uma orquestra sinfônica tocar um samba sem tirar-lhe o espírito, nada fica cheirando a sinfonia.
O músico que enxerga um palmo à frente do seu nariz só tem uma atitude diante dele: a de respeito”.

Luciano Perrone (1908-2001) (percussionista sinfônico, baterista, compositor de música popular, integrou o Quinteto e o Sexteto Radamés Gnattali.)

Comentário de Luciano Perrone durante entrevista de Radamés ao Jornal do Brasil, de 01/12/1976, e durante o depoimento de Radamés, no Museu da Imagem e do Som, em 1985.

“(…) Não gosta de falar das próprias obras. Tem em relação a elas o desprendimento de uma macieira pelas suas próprias maçãs. Mas sem as maçãs de Radamés, a música brasileira perderia um dos seus recantos mais saborosos (1)”.

“O ecletismo de Radamés pode incomodar a um purista. Mas quem não tiver preconceitos, e tiver os ouvidos abertos, descobrirá facilmente um fabuloso artesão, um grande inventor de melodias, um eterno experimentador que fascina a juventude com sua própria juventude de espírito (2)”.

 

 

Luís Paulo Horta (1943-2013) (jornalista, escritor, crítico de música )

1- Extraído de texto datilografado, assinado pelo autor. Sem indicação de data. Acervo RG.

2- Trancrito do livro "Radamés Gnattali; o eterno experimentador", de Valdinha Barbosa e Anne Marie Devos. Rio de Janeiro: FUNARTE/INM/DMP, 1984.

“Há que falar também de um compositor novo, mal conhecido dos paulistas, o gaúcho Radamés Gnattali. Tem uma habilidade extraordinária para manejar o conjunto orquestral, que faz soar com riqueza e estranho brilho. É certo que “jazzifica” um pouco demais para o meu gosto defensivamente nacional, mas apesar de sua mocidade, já domina a orquestra como raros entre nós. É a nossa maior promessa do momento”.

 

Mario de Andrade (1893-1945) (escritor, poeta, compositor, musicólogo, crítico de arte)

Trecho da coluna "Música nacional" assinada por Mario de Andrade, em O Estado de São Paulo, de 12 de fevereiro de 1939.

“Radamés foi como um pai para mim. Desde meus 14 anos, quando o conheci, ele me ensinou tudo de música e acompanhou minha carreira. Internacionalmente reconhecido, como um dos melhores compositores do século, Radamés influenciou toda uma geração musical, que vai de mim a Tom Jobim”.

Raphael Rabello (1962-1995) (violonista, compositor)

Jornal O Globo, de 04 de fevereiro de 1988.

“(…) Eu queria sempre que o maestro Radamés regesse para mim. Eu queria me esconder atrás do piano. Durante a minha vida toda eu tô me escondendo. Isso foi na Rádio Nacional, eu morri de medo, pois aqueles músicos são uma raça desgraçada. Aquele pessoal do ‘sindicado’ que fica olhando pro relógio, faz queixa: ‘acabou o ensaio!’ Então o Radamés me ajudou a enfrentar essas coisas da vida, essas feras”.

Tom Jobim (1927-1994) (compositor, letrista, arranjador, pianista)

Comentários feitos por Tom durante o depoimento de Radamés ao Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro, em 1985.

“Radamés é um carpinteiro nascido na carpintaria.
Radamés mora numa rua calma, cheia de passarinho.
Radamés você é a coisa mais linda que todo mundo já conheceu.
Eu vou te dar um beijo e te convidar para tomar um chope”

Tom Jobim (1927-1994) (compositor, letrista, arranjador, pianista)

Comentários feitos por Tom durante o depoimento de Radamés ao Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro, em 1985.